quarta-feira, 27 de junho de 2012

Os escândalos de Londrina e os livros didáticos da Abril

Veja aqui o que o Partido da Imprensa Golpista (PIG) não mostra!


Londrina é uma cidade imersa em escândalos sucessivos.
No momento, o quadro é tão crítico que motivou uma manifestação da própria Igreja Católica no município.
 
 
Diante da situação política pela qual passa nosso Município, o clero de Londrina, reunido no dia 24 de maio, dirigi-se a todos os fiéis e a todas as pessoas de boa vontade com a presente Nota.
 
A política é a organização do bem comum e expressão da democracia, da cidadania, da participação do povo nas coisas públicas. Assim, os pilares da política são: a verdade, a justiça, o bem, a liberdade. Ainda não alcançamos este ideal, pois, hà vários anos acontecem denúncias, investigações, escândalos, prisões no âmbito da política londrinense.
 
Nos últimos dias foram presos em flagrante o secretário de governo e um empresário, acusado de suborno. O Gaeco (Grupo Especial de Combate ao Crime Organizado) trabalha na denúncia de que vereadores manipularam resultados de votação na Câmara Municipal.
 
A prefeitura de Londrina teria muito a temer se uma publicação nacional resolvesse investir no escândalo que sacode a cidade, nacionalizando-o.
 
Dentro desse quadro, surgiu a denúncia de que duas editoras do Grupo Abril – Ática e Scipione – conseguiram vender livros para todas as escolas municipais.
 
Trata-se de caso graúdo, visto que o Ministério da Educação fornece livros gratuitamente – inclusive das duas editoras – através no Programa Nacional do Livro Didático.
Segundo o site Bonde (a partir de dica do leitor (costa):
 

MP e Câmara recebem nova denúncia de compra de livros

 

Uma nova denúncia de compra  de livros didáticos foi protocolada no Ministério Público (MP) e enviada à Câmara Municipal de Londrina. No início da sessão desta terça-feira (26), o vereador Rony Alves (PTB), informou que, conforme a denúncia, quase todas as escolas municipais compraram livros da Editora Ática e Scipione.
 
O professor justificou que é o fato"estranho", pois os docentes das escolas devem se reunir para a escolha dos materiais que serão adquiridos sem qualquer tipo de interferência externa. "Ática e Scipione, duas editoras compradas pela Abril, são seríssimas", ponderou o vereador durante o discurso.
 
De acordo com Alves, questionada pelo telefone, a secretária de Educação, Virgínia Laço, negou a existência de irregularidades ou direcionamento da compra. No entanto, o professor mostrou no plenário uma circular da Secretaria de Educação que convidava as escolas da rede municipal para uma palestra de uma autora da Editora Ática. "Isso é muito perigoso. Alguma coisa de estranho aconteceu em Londrina e nós vamos investigar", prometeu.
 
Sintonia Fina
- com o Com Texto Livre
No Advivo

terça-feira, 26 de junho de 2012

Enfim um economista para defender o Brasil

Roubartilhado do Aposentado Invocado
Terça-feira, 26 de junho de 2012

Enfim um economista para defender o Brasil

Análise endividamento
Alta do crédito no Brasil corrige cenário anormalPreocupação com expansão acima do PIB não leva em conta que a proporção em anos anteriores era muito baixa CARLOS EDUARDO SOARES GONÇALVES
ESPECIAL PARA A FOLHA
Causou certo furor midiático a recomendação do BIS (Banco Internacional de Compensações) de que o Brasil moderasse a taxa de expansão do crédito doméstico.
A estatística que serviu de base para o tal "puxão de orelha" foi a seguinte: nos últimos três anos, o crédito por aqui cresceu, em média, e por ano, 13,5 pontos percentuais a mais do que o PIB.
É fato não passível de contestação que o crédito cresceu muito velozmente como proporção do PIB desde 2004, tendo passado, em oito anos, de cerca de 25% do PIB para os atuais 50%. Mas há motivos para preocupação?
Num mundo sob os efeitos de uma crise financeira de dimensões épicas, a resposta que parece mais natural é "sim, óbvio". Mas creio que essa resposta está equivocada no caso brasileiro.
Viremos a pergunta de ponta-cabeça: é possível que, na verdade, o patamar de 25% de 2004 fosse, ele sim, uma anomalia? A julgar pelos dados de crédito relativos a países similares ao Brasil, a situação corrente é que deveria ser considerada como normalidade. O puxão de orelha, nesse caso, se é que houve, não faz sentido.
O ponto central aqui é: o sistema financeiro brasileiro é bem sólido, tendo conquistado elevada reputação internacional a partir da reestruturação realizada no âmbito do Proer, em 1995. Os bancos são bem capitalizados -a principal medida de capital como proporção dos ativos totaliza 16%, bem acima da média mundial-, a regulamentação imposta pelo Banco Central é extraprudente (mesmo antes da Basileia 3), e a inadimplência, mesmo tendo se elevado recentemente, é moderada para os padrões internacionais, como o próprio BIS indica nos gráficos de seu documento.
Diga-se que, nesse mesmo estudo, o Brasil aparece como um dos únicos países no qual a provisão para devedores duvidosos supera a taxa de inadimplência dos bancos.
O crédito aqui cresceu rapidamente porque: 1) os juros reais desceram da estratosfera; 2) o governo nos últimos 12 anos consolidou a política fiscal; 3) no começo do governo Lula ocorreram mudanças estruturais favorecendo o crescimento do crédito imobiliário (que de pífio passou a pequeno).
Repasse a lista citada e note que você não encontrará os perjúrios cometidos alhures: juros reais extravagantemente baixos; súbita desregulamentação dos mercados privados de crédito; empréstimos oficiais para financiamento do valor total de imóveis para tomadores sem renda e emprego.
Sim, com endividamento das famílias acima de 20% da renda, é bem provável que a evolução do endividamento daqui a diante seja mais modesta. Isso é salutar e já está em curso, por aumento de cautela dos próprios bancos.
Mas não se deve exagerar a questão do comprometimento da renda com pagamento de juros e principal, pois a dívida é relativamente curta, os juros na ponta são cadentes e a renda cresce robustamente. Para nossa sorte, quando o tema é crédito, Brasil não é Estados Unidos.
CARLOS EDUARDO SOARES GONÇALVES é professor titular do Departamento de Economia da FEA-USP

Postado por APOSENTADO INVOCADO 1

É possível reverter golpe no Paraguai

Por Antonio Martins, no sítio Outras Palavras:

Nas primeiras horas de domingo, o presidente eleito pelos paraguaios, Fernando Lugo, abandonou a postura de resignação que mantinha desde sexta-feira, quando deposto, e tomou uma atitude que pode mudar o futuro imediato do país. Lugo dirigiu-se à rua Alberdi, no centro de Assunção, onde centenas de manifestantes haviam ocupado a TV Pública, em protesto contra ameaças de censura. Dirigiu-se a eles e à imprensa internacional sem meias palavras: “Sem dúvidas, foi um golpe. Um golpe parlamentar contra a cidadania e a democracia, e isso precisa ser denunciado aos quatro ventos”.


Precedida de intensa movimentação social e diplomática, a fala desfez a aparência de “normalidade” com que contavam os golpistas e seus apoiadores locais e externos – Estados Unidos e Vaticano, em especial. Está gerando uma reação em cadeia de resistências sociais e diplomáticas cujos lances mais recentes são a exclusão do “presidente” golpista do Mercosul e da Unasul (domingo à tarde) e a formação de um governo paralelo liderado por Lugo (esta manhã, em Assunção). Caso se mantenha, este processo pode reverter o golpe de Estado e colocar em novo patamar o que alguns chamam de “nova independência” sul-americana. Os fatos decisivos estão se produzindo neste início de semana: aos poucos, torna-se possível desvendá-los e romper a cortina de silêncio que os jornais comerciais brasileiros insistem em manter sobre o episódio.

A resistência avança explorando o calcanhar-de-aquiles dos golpistas: “como careciam de causas racionais que justificassem uma medida tão extrema, optaram por praticá-la com máxima pressa, explica, no jornal paraguaio Última Hora o analista político Alfredo Boccia. Ele prossegue: “O libelo acusatório causa vergonha alheia, de tão ridículo: não cuidaram das mínimas formalidades legais e atropelaram o respeito aos prazos de defesa”.

Lugo estava no Brasil, participando da Rio+20, quando a Câmara dos Deputados abriu, na quinta-feira, o “processo” que levaria a sua “cassação”. Washington Uranga, colunista do Página 12 argentino, conta: os opositores aproveitaram-se da ausência para concretizar finalmente uma ameaça que fizeram “em 23 ocasiões anteriores, pelos mais diversos motivos”. E mais: “a maioria destas manobras foi facilitada pelo próprio vice-presidente Federico Franco. (…) Sabendo que contava com os votos próprios [do Partido Liberal] mais os do Partido Colorado, em várias ocasiões o vice foi até a sede do governo para ameaçar Lugo e tentar extorqui-lo com a ameaça de juízo político, apenas para obter benefícios econômicos para si mesmo…”

Vinte e quatro horas depois, o Legislativo, que sempre bloqueou todas as iniciativas apresentadas por Lugo (da reforma agrária à nomeação de embaixadores), decretava seu impeachment por ampla maioria (39 x 4). A flagrante ilegalidade da aventura foi destacada pelo chanceler argentino Héctor Timerman, em entrevistaao Página 12: “Praticaram uma execução sumária. Darem duas horas de defesa a um presidente democraticamente eleito – um tempo menor que o se concede a quem recorre de uma multa por avançar um sinal vermelho”.

Mas quem dava respaldo aos aventureiros? “É muito provável que o pequeno Paraguai se dispusesse a confrontar as regras do Mercosul e da Unasul, entrando em conflito com seus dois vizinhos, se não contasse com o estímulo e proteção do governo norteamericano”, sugere o economista Flávio Lyra, numtexto que Outras Palavras publica hoje. Na mesma entrevista ao Página 12,um relato do chanceler argentino confirma esta impressão. Timerman estava em Assunção nas horas que antecederam o golpe. Havia voado para lá com uma delegação de colegas da Unasul, alarmados pela perspectiva de deposição do presidente eleito. Reporta, em detalhes, as insistentes tentativas de diálogo dirigidas pelos diplomatas à oposição paraguaia – e a soberba com que foram rechaçadas. Eis um dos trechos: “Às 11h45 [de sexta-feira], faltavam 15 minutos para o começo do julgamento. Disse-lhes: ‘Senhores, virão épocas muito duras para o Paraguai, porque nós teremos de aplicar a cláusula democrática’. Não pareceu comovê-los em nada”.

No final da tarde de sexta, Lugo estava deposto. Quase sincronicamente, em Washington, o porta-voz do Departamento de Estado para a América Latina, Darla Jordan, emitia nota que se calava diante do ataque à democracia, mas pedia “calma e responsabilidade” aos paraguaios… Ao contrário do que se informou no sábado, porém, a Casa Branca ainda não reconheceu oficialmente o novo “governo” paraguaio. Já o Vaticano e os bispos – que exercem forte influência, num país católico e conservador – foram menos sutis. Na quinta-feira, uma comitiva episcopal tentou, sem sucesso, convencer Lugo a renunciar. No domingo, o núncio apostólico Eliseo Ariotti, representante oficial do Papa no Paraguai, afirmou, a respeito da deposição do presidente: “alegra-me muito que o povo simples e todas as autoridades tenham pensado no bem do país”. Como se o grotesco da declaração fosse pouco, anunciou que celebraria uma missa na catedral “pela paz”. Na cerimônia, ofereceu pessoalmente a comunhão ao golpista (foto).

* * ***

A primeira atitude de Lugo, após a deposição, foi conformar-se. Débil no Parlamento desde o início de seu governo, o presidente também viveu, ao longo do mandato, uma série de desencontros com os movimentos sociais. Houve erros de parte a parte, consideram Emir Sader (em Carta Maior) eSantiago O’Donnel (em Página 12): o presidente não cumpriu a maior parte de seu programa; os movimentos não compreenderam que, sem apoiá-lo, ele não teria força para executar as reformas propostas.

Por paradoxo, talvez o golpe tenha produzido uma aproximação necessária. A partir da noite de sábado, a TV Pública, criada por Lugo em 2011, converteu-se num centro da resistência popular. Centenas de manifestantes acorreram à rua Alberdi, assim que surgiram sinais de que o governo ilegítimo pretendia censurá-la. O Página 12 narra: naquela mesma noite, grupos de jovens construíram duas barricadas nas ruas de acesso. O cineasta Marcelo Martinessi, diretor nomeado pelo presidente eleito, alegrou-se: “as pessoas estão tomando este projeto como seu”. Um microfone foi estendido aos manifestantes: a resistência já tinha um canal para ir ao ar.

Na manhã de domingo, Lugo compareceria ao local, para sua fala emblemática. Horas depois, os ativistas já eram milhares. Foram eles que rapidamente restabeleceram, à tarde, o fornecimento de energia e recolocaram a emissora no ar, depois de um corte executado pela agência nacional de eletricidade.

Os fatos vêm se acelerando desde então. Formou-se uma Frente pela Defesa da Democracia no Paraguai. Mais tarde, ainda no domingo, Lugo deu novo passo e anunciou a formação de um governo paralelo, composto por seus ministros e com primeira reunião marcada para esta manhã. A edição desta manhã dePagina 12 estampa uma entrevista em que confirma “já começamos a resistência pacífica. (…) Já surgem manifestações de cidadãs e cidadãos. (…) O repúdio [ao golpe] crescerá”. O jornal confirma: estão programadas para hoje manifestações diante dos edifícios públicos e interrupção do trânsito em avenidas estradas.

Ao contrário do que ocorreu em tantos precedentes históricos, os governos da América do Sul parecem dispostos a reagir ao golpe. O envio de uma delegação de chanceleres a Assunção pode ser mais que um gesto simbólico. Ainda no sábado, convocou-se uma reunião de emergência do Mercosul, em Córdoba (Argentina), a partir da próxima quinta-feira. No domingo, anunciou-se que Fernando Lugo – e não o governo instituído por golpe – será recebido como representante do Paraguai. Num primeiro sinal de vacilação, Federico Franco, o presidente instituído pelo golpe, anunciou que pediria ao homem que depôs para “atenuar as tensões desencadeadas na América Latina”. Foi, evidentemente, rechaçado por Lugo.

Desde sexta-feira, os países da América do Sul estão retirando seus embaixadores de Assunção, em protesto contra o golpe de Estado. Há dois anos, na resistência ao golpe de Estado praticado em Honduras, o Brasil jogou papel destacado. Desta vez, a presidente da Argentina, Cristina Kirchner, parece ter assumido este papel. Foi ela quem tomou a iniciativa, ainda na sexta-feira, de retirar seu embaixador de Assunção, “até o restabelecimento da ordem democrática”. Nos dias seguintes, o gesto seria seguido por Bolívia, Brasil, Equador, Uruguai e Venezuela. Nas últimas horas, aderiram ao movimento Colômbia e México, o que parece indicar uma tendência isolamento dos Estados Unidos. A própria Organização dos Estados Americanos, em outras épocas dominada por Washington está agoraquestionando a legitimidade da deposição de Lugo.

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Ninguém é capaz de dizer, a esta altura, qual será o desfecho dos acontecimentos. Mas é evidente que uma sequência tão impressionante de fatos novos, cheia de surpresas, num país vizinho ao Brasil, seria um tema jornalístico de relevância máxima. A mídia brasileira, porém, trata-o de forma modorrenta e burocrática. Na maior parte das publicações, o Paraguai esteve nas manchetes apenas quando Lugo foi afastado. Ao contrário da imprensa argentina, nenhuma publicação ousou usar a palavra golpe.

No momento em que este texto é concluído, a manchete da Folha de S.Paulo, em sua edição online, destaca as declarações do “chanceler” (do governo golpista paraguaio, que se queixa de ter sido afastado “sem defesa” da reunião do Mercosul… Por sugestiva coincidência,O Globo e Estado de S.Paulo,embora menos discretos, ocultam a série de reviravoltas em Assunção para destacar o mesmo personagem… Já o UOL, também do grupo Folha, enviou por algum motivo o repórter Guilherme Balza à capital paraguaia – mas tem relegado a segundo plano as ótimas matérias produzidas por ele (como estevídeo)…

O rápido surgimento de um movimento de resistência no Paraguai – e em especial o fato emblemático de ele ter por centro a TV Pública – revelam: talvez, também no Paraguai, a sociedade já seja capaz de superar as velhas formas de controle da informação e seus laços com os antigos donos do poder…

O golpe, a democracia e a viralatice

Por Miguel do Rosário, no blog O Cafezinho:

Em nota, o Itamaraty chamou o impeachment relâmpago de Fernando Lugo, agora ex-presidente do Paraguai, de “ruptura da ordem democrática”, o que é uma expressão diplomática para designar um golpe de Estado.

A reação do governo brasileiro ao golpe do Paraguai, portanto, foi dura, e desde o início, ao determinar o envio urgente do chanceler Antonio Patriota à Assunção, para tentar reverter a decisão dos parlamentares do país de promoverem a derrubada, em tempo recorde, de um presidente eleito; e articular com seus vizinhos a expulsão do Paraguai do Mercosul.


Digo isso porque estou chocado com o fanatismo antigovernamental de alguns segmentos da ultraesquerda brasileira, que perante uma situação de tamanha gravidade, ao invés de protestar contra o golpismo, reagiu – açodadamente – com críticas ao Brasil e mesmo à Lugo.

A dura resposta do Brasil, de retirar seu embaixador, emitir uma nota onde fala explicitamente em “ruptura do processo democrático”, ou seja, golpe, e usar o verbo “condenar”, o mais agressivo do vocabulário diplomático, além da expulsão do Mercosul, é especialmente louvável porque o Brasil é o país que, em tese (e numa visão medíocre e de pouca visão), mais poderia lucrar com a deposição de Lugo.

Por outro lado, o Brasil, justamente por seu peso político, precisa tomar um cuidado extremo para que suas ações não sejam interpretadas como intervenção estrangeira, ou violação do princípio da autodeterminação dos povos. Por isso achei tolo o artigo de Fernando Rodrigues, em seu blog, dizendo que temos “medo de sermos imperialistas”, e elogiando (claro!) a ação assertiva dos EUA em casos como esse. Ora, a ação do Brasil nunca vai agradar a todos, e sempre haverá interpretações variadas para o que nós fazemos, mas a preocupação em respeitar a soberania do Paraguai é também um princípio da Constituição brasileira. Analiso o texto de Fernando Rodrigues ao final do post.

Os “brasiguaios”, brasileiros com nacionalidade paraguaia, constituem hoje uma das classes mais ricas do país, atuando sobretudo na produção de soja. Apesar de Lugo jamais ter tocado na economia de soja, ele defendia uma reforma agrária que poderia eventualmente prejudicar os interesses dos grandes produtores.

O novo presidente do Paraguai, Federico Franco, sabe disso, naturalmente, e tentou uma jogada torpe. Suas primeiras declarações se dirigiram ao Brasil e à presidenta Dilma, a quem bajulou de maneira vergonhosa, e em seguida disse que o novo governo daria tratamento “privilegiado” aos brasiguaios. Ou seja, Franco tentou subornar os princípios democráticos da política externa brasileira, com vistas a nos convencer a aceitar um golpe de Estado em troca da estabilidade financeira de fazendeiros brasileiros estabelecidos no Paraguai.

Nunca vi nada tão odioso. O Brasil não quer que o Paraguai dê tratamento “privilegiado” a nenhum brasileiro. Brasileiros não são melhores que ninguém, a começar por latifundiários de soja. Queremos que o governo paraguaio seja respeitoso com os brasileiros em seu território, e aja com justiça. Por exemplo, se há necessidade de uma reforma agrária no Paraguai, e tudo indica que há, para que o país possa se desenvolver economica e socialmente, e se para isso for necessário fazer algum tipo de desapropriação em terras ocupadas por brasileiros, então que se faça. Um governo sério, e Lugo é um cara sério, evidentemente não faria nenhum tipo de violência contra fazendeiros.

Entretanto, o interesse estratégico do Brasil não é transformar o Paraguai numa grande fazenda de soja, e sim num país desenvolvido socialmente, até para ser um mercado para nossos produtos industrializados e culturais.

Há setores das elites, brasileiras e em toda América do Sul, que não entenderam ainda que o desenvolvimento social é condição necessária para o desenvolvimento econômico. Elas precisam deixar que o capitalismo da América do Sul complete tranquilamente sua evolução de um estágio medieval, pré-revolução burguesa, para uma etapa superior. Daí sim, poderemos brincar de ser liberais ou socialistas, a depender da escolha soberana do povo. Antes disso, precisamos superar o subdesenvolvimento.

Sobre os aspectos jurídicos do golpe paraguaio, estamos assistindo agora, mais uma vez, o espetáculo das máscaras em queda. Todos aqueles furiosos defensores da democracia, que passaram os últimos anos chamando presidentes eleitos de ditadores, agora se apressam em chamar um político sem voto, alçado ao poder através de uma tramóia parlamentar, de “presidente”.

Em sua coluna de ontem, Merval Pereira adere alegremente ao golpe. Arnaldo Jabor exala um insuportável máu-hálito golpista em comentário na CBN. O Estadão de hoje também exalta a constitucionalidade do impeachment.

É sempre assim: depor o presidente eleito e mandar o exército recolhê-lo em sua casa e expulsá-lo do país, como fizeram em Honduras, é democrático. Decidir um impeachment de um presidente, sem lhe dar direito a defesa, em 36 horas, é democrático. Mas eleger um presidente, eleger um Congresso, aí é ditadura.

A inversão de valores atingiu o paroxismo na América Latina. Mas uma coisa não mudou. As corporações de mídia continuam, como sempre fizeram, apoiando golpismos. Vale lembrar que todo golpe de Estado se fantasia de constitucional. O golpe de 64 também teve aparência constitucional. Os tanques na rua foram só propaganda. O golpe mesmo veio na forma de articulações políticas, decididas em reuniões entre oficiais militares, governadores, parlamentares e barões da mídia.

O Estadão, por exemplo, tenta legitimar o golpe através do argumento de que não há manifestações gigantescas no país. Ora, se fosse um golpe contra um governante de quem o Estadão gostasse, qualquer aglomeraçãozinha de cinco pessoas numa praça ganharia a primeira página de todos os sócios da mafiosa Sociedade Interamericana de Imprensa, com a manchete: PARAGUAIOS SAEM ÀS RUAS CONTRA GOLPE CONTRA DEMOCRACIA. Como não é o caso, não importa que milhares de paraguaios se manifestem. A mídia os ignorará, assim como tentou fazer a Globo com as Diretas Já.

Também no Brasil não aconteceram, num primeiro momento, grandes manifestações contra o golpe militar, e ele deixou de ser golpe por causa disso? A população reage com perplexidade e inclusive timidez quando toma um susto. Em geral, conjugam-se em favor dos golpistas o temor da população, traumatizada por outras ocasiões em que os mesmos partidos que hoje assumiram o poder no Paraguai protagonizaram genocídios; o monopólio da mídia, em geral consolidado justamente durante períodos de ditadura; a falta de esperança e a resignação de um povo acostumado a ser explorado. Esses fatores, contudo, apenas tornam golpes, brancos ou não, ainda mais perversos.

Interessante ainda notar que a mídia brasileira se revela mais conservadora do que governos de direita, como Colômbia e Chile, cujas chancelarias condenaram o golpe. O que aliás é previsível. A estrutura de nossos meios de comunicação é a herança mais pesada, mais maldita, da ditadura que vivemos. Sua reação ao golpe no Paraguai, por isso mesmo, tem uma positiva consequência didática. Na política, assim como na literatura, a melhor forma de conhecer um personagem, é observar como se porta no dia a dia.

Contraponto 8530 - " 'Vou bater falta e fazer gol' "

25/06/2012
'Vou bater falta e fazer gol'
'Vou bater falta e fazer gol' Foto: Edição/247

Ex-presidente rompe o silêncio durante anúncio do apoio do PCdoB à candidatura de Fernando Haddad em São Paulo: defendeu aliança com Paulo Maluf, disse que candidatura Serra é um equívoco e prometeu "morder as canelas dos adversários" para eleger seu candidato

Do Brasil247 - 25 de Junho de 2012 às 20:20
247 - Depois de passar alguns dias calado, por recomendação médica, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou com tudo e disparou contra o ex-governador José Serra (PSDB), o principal adversário de seu candidato à Prefeitura de São Paulo, Fernando Haddad. "Serra está patinando nas pesquisas, jogaram óleo na pista, ele vai perceber que foi um equívoco quem o convenceu a sair candidato", disse Lula, ao lado de Haddad e de líderes do PC do B, que fecharam, nesta segunda-feira 25, apoio à chapa petista em São Paulo.
Lula lembrou ainda que, depois de eleito em 2005, Serra ficou apenas um ano e três meses à frente da Prefeitura. "Ele foi eleito e, ao invés de governar, ficou um ano e 4 meses (na verdade foram um ano e 3 meses) e saiu", disse o ex-presidente, que completou: "Ele não pegou nem a primeira enchente e o bichinho já correu, ele saiu". O ex-presidente também disse à Folha de S.Paulo que não se arrepende "nem um pouco" da aliança com o ex-governador e ex-prefeito Paulo Maluf e seu PP.
O ex-presidente aproveitou para avisar que está se recuperando do tratamento de combate ao câncer na laringe e que, assim que estiver recuperado, vai entrar de cabeça na campanha de Haddad, participando de comícios, gravações de TV e demais atividades. "Logo vou estar batendo falta e fazendo gol", afirmou. "Se necessário, morderei as canelas dos adversários para eleger Fernando Haddad", resumiu.
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Contraponto 8531 - "Empresários brasileiros também são sócios do golpe no Paraguai"


O meu amigo Daniel Merli, jornalista que atualmente trabalha em Brasília, mas que conhece muito bem o Paraguai, a meu pedido enviou um texto para este blogue que ajuda a entender os interesses que estão por trás do golpe contra o presidente Fernando Lugo.
É importante perceber que empresários brasileiros são sócios deste golpe. Segue o texto.
Golpe tipo exportação
Derrubada de Lugo guarda, em si, a marca da dinâmica econômica paraguaia. País leva a fama, mas são empresários estrangeiros principais interessados em usar o território como plataforma de seus interesses

Em janeiro deste ano, a direita paraguaia já havia tentado a cassação do presidente Fernando Lugo por seu governo ter assinado o Protocolo de Montevideo – que prevê sanções comerciais a países que rompessem a “ordem democrática”. O acordo tratava-se de “tema muito delicado” por ser uma “renúncia à nossa soberania”, como explanou um dos advogados do Partido Colorado em entrevistas.
A defesa aberta da “nossa soberania” em realizar golpes é um bom exemplo de como a direita local manipulou o nacionalismo paraguaio, criando um cenário em que o adversário do país era Lugo, comparsa do “imperialismo brasileiro” e de outros países vizinhos. Semeava em terreno fértil, evocando sentimento latente desde a Guerra da Tríplice Aliança, no final do séc. XIX, passando pela Guerra do Chaco, contra a Bolívia, na década de 1930, e o apoio externo à ditadura de Alfredo Stroessner – até sua morte, no exílio, em solo brasileiro. É o mesmo sentimento que o novo governo tentará agora manipular afirmando que a Unasul tenta se intrometer na soberania paraguaia.
Na disputa real, estava o combate a um governo que havia passado a ser “conivente” com as ocupações de terra dos “camperos” – grupos de sem-terra ou pequenos produtores paraguaios organizados no MCNOC e MCP. Foi essa a acusação principal feita no processo de cassação do último dia 22 de junho, quando, com baixíssimo apoio parlamentar, Lugo não pôde resistir à pressão do agronegócio local – grande parte dele formado por empresários brasileiros.
Esses sim, bons representantes do “imperialismo brasileiro”, migraram para um país com regras sanitárias ainda mais flexíveis em relação ao uso de agrotóxico, com menor grau de proteção trabalhista, terras mais baratas e localizadas na mesma latitude do Paraná, mantendo-se na rota do Porto de Paranaguá, de onde podem alcançar o mercado externo. Como vantagem adicional, desfrutam de regras tributárias ainda mais generosas que as brasileiras. Para se ter uma ideia, a criação do imposto de renda no Paraguai foi das grandes batalhas de Lugo contra oposição.
“É fácil falar mal do Paraguai, mas enquanto no Brasil leva oito anos para o governo tirar invasores de uma fazenda, aqui leva 35 dias”, defende o dono de uma das famosas churrascarias brasileiras em Assunção, em entrevista à BBC. É esse Paraguai que os senadores levantaram-se para defender.
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Coluna Econômica - 26/06/2012
Luis Nassif
Os episódios do Paraguai – destituição do presidente Fernando Lugo – chamam a atenção para a democracia imperfeita na América Latina.
Findo o período militar, a redemocratização esbarrava na falta de tradição democrática e nos modelos imperfeitos de presidencialismo. Em muitos países, havia dessintonia entre a eleição presidencial e a do Congresso – este, muito amarrado ainda a modelos oligárquicos, típicos de países recém-entrados na democracia.
Ao mesmo tempo, a chamada sociedade civil, muito incipiente, passou a ser fundamentalmente influenciada pelos grandes grupos de mídia. Justamente em um período inaugurado pelo caso Watergate – no qual o trabalho de um jornal logrou derrubar um presidente da República da maior nação democrática do planeta - e aprofundado pelo modelo Rupert Murdoch – de tornar os veículos agentes ativos da política, como estratégia de colocação empresarial no novo mundo da Internet.
Criou-se, aí, o cadinho para uma sucessão infindável de crises políticas. Mais que isso, obrigou a maioria dos governantes a escolher entre a cooptação fisiológica (da oposição ou da mídia) ou a crise.
Sem a cooptação, criava-se um conflito entre Congresso e o Executivo. Em determinado momento ocorria algum fato político. Os grupos de mídia amplificavam o fato, abrindo caminho para o impeachment.
No domingo passado, o colunista Jânio de Freitas, da Folha, deu o exemplo dos jardins da Casa da Dinda (onde morava Fernando Collor). Independentemente de vícios ou virtudes de Collor, a cobertura da mídia transformou um jardim normal nos próprios jardins da Babilonia.
Recentemente teve-se o monumental escândalo com o Ministro que usou cartão corporativo para comprar uma tapioca.
Quando os governos eram do PSDB, o PT valia-se desse jogo. No governo do PT, quem se vale é o PSDB. Mas o agente principal do jogo são os grandes grupos midiáticos, muitas vezes operando em defesa de seus próprios interesses.
Porque o governo Sarney manteve-se até o fim, apesar das denúncias frequentes de corrupção e de uma inflação que chegou aos 70% ao mês e o governo Collor caiu? A resposta está muito menos nos vícios e virtudes de cada um e muito mais na maneira como cooptaram grupos midiáticos e políticos.
Em qualquer caso, o preço pago é enorme. O risco da crise torna os governantes excessivamente cauteloso em relação a medidas básicas que deveriam tomar, tornam-nos reféns de acordos políticos espúrios – fortalecendo enormemente o fisiologia do chamado presidencialismo de coalisão.
O Brasil só não sucumbiu ao terremoto das crises políticas intermitentes pela sorte de ter sigo governado por dois presidentes suficientemente pragmáticos - Fernando Henrique Cardoso e Lula.
A consolidação da democracia brasileira passa por reformas políticas, que acabem de vez com o financiamento privado de campanha e com as indicações políticas; por uma Lei dos Meios que regularize e democratize de vez a questão da mídia eletrônica; por atuação dos órgãos de defesa econômica, rompendo com práticas comerciais daninhas à concorrência midiática.
Ou seja, é premente instituir a competição nos meios políticos e midiáticos, fortalecendo não apenas a mídia do interior como a nova midia da Internet.
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Contraponto 8537 - Da Carta Maior

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26/06/2012
Da Carta Maior

MENSALÃO:'AQUI O VICE RECHAÇOU OS GOLPISTAS'
"Lá, eles tiveram sucesso porque o Presidente Lugo não tinha uma agremiação partidária sólida e estava isolado (...)A conspiração contra Lugo estava no Palácio, através do Vice (...)Aqui, eles não tiveram sucesso porque - a despeito das recomendações dos que sempre quiseram ver Lula isolado, para derrubá-lo ou destruí-lo politicamente - o nosso ex-Presidente soube fazer acordos com lideranças dos partidos fora do eixo da esquerda... Seu isolamento, combinado com o uso político do"mensalão", certamente terminaria em seu impedimento. Acresce-se que aqui no Brasil - sei isso por ciência própria pois me foi contado pelo próprio José Alencar- o nosso Vice presidente falecido foi procurado pelos golpistas "por dentro da lei" e lhes rejeitou duramente' (Governador Tarso Genro;leia artigo oportuno no momento em que Lula é questionado por alianças e se exige um julgamento à moda paraguaia do mensalão; nesta pág)

(Carta Maior; 3ª feira/26/06/2012)
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segunda-feira, 25 de junho de 2012

Vamos falar de alianças

Do Tudo em Cima - 22/06/2012

Da esquerda para a direita: Gilberto Kassab (PSD-SP), José Arruda (DEM-DF),
Valdemar Costa Neto (PR-SP), Joaquim Roriz (PSC-DF), Jaqueline Roriz (PMN-DF), Paulo Preto (ex-diretor da Dersa e ex-assessor de Serra), Silas Malafaia (pastor fundamentalista), Soninha Francine (PPS-SP), Índio da Costa (DEM-RJ), Marconi Perillo (PSDB-GO), Demóstenes Torres (ex-DEM-GO). Esses são apenas alguns dos cébelebres aliados e apoiadores de José Serra. Ajude-nos a completar a lista, que é longa


Contraponto 8523 - "Saiba por que países do Sul e do Norte divergem sobre Paraguai "

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25/06/2012
Saiba por que países do Sul e do Norte divergem sobre Paraguai
Do Blog da Cidadania - 25/06/2012

Eduardo Guimarães
Nesse imbróglio da deposição-relâmpago do bispo Fernando Armindo Lugo de Méndez da presidência do Paraguai, o que importa menos, agora, é o desempenho que vinha tendo. Acusado por todos os partidos com representação congressual, estava isolado e faria um governo anódino até o fim, mas foi alvo de uma farsa que se tornou o cerne da questão.
As queixas sobre seu desempenho eram muitas e de variadas origens e a debilidade política de seu governo revelou sua inabilidade. Há, ainda, informações de que não vinha sendo tão progressista quanto se esperava, ainda que sejam opiniões de grupos políticos paraguaios mais à esquerda.
Sendo verdadeiros os relatos sobre a incompetência política e administrativa de Lugo, não se entende por que foi desfechado um processo como o que se viu, no qual lhe foram negadas as mínimas condições de defesa. Surgem várias questões:
1) Por que o processo precisou ser tão rápido?
2) Por que a Justiça não pôde se pronunciar?
3) Por que tudo foi feito em surdina até o último momento, surpreendendo até o povo e a comunidade internacional?
4) Por que causou tanta comoção um processo que a classe política paraguaia esperava que fosse muito mais facilmente aceito?
5) Países como Estados Unidos, Alemanha, Espanha e Canadá estão reconhecendo o processo político. Por que os países latino-americanos não?
As respostas a tais perguntas são facilmente respondíveis.
1) O processo de cassação do mandato de Lugo foi rápido para não dar tempo a articulações e exigências de prazo condizente a um juízo de tal importância
2) Se houvesse um grão de legalidade nesse processo, não poderia ter sido concluído sem que a Justiça recebesse e analisasse o questionamento que o presidente deposto tentou fazer, mas, quando lhe bateu à porta, não havia quem recebesse a ação.
3) Vide resposta um.
4) Vide resposta dois.
5) Porque o que aconteceu no Paraguai não tem poder de se alastrar pelos países que aceitaram o processo suspeito, mas tem para se alastrar pelos países latino-americanos.
Ainda assim, talvez tudo pudesse ser visto como mais uma das excentricidades de uma nação que funciona como um entreposto de livre comércio de tudo que é legal e ilegal (armas, drogas etc.), que não tem qualquer importância econômica e onde golpes de Estado constituem quase uma tradição – o último ocorreu há míseros 13 anos.
Coincidentemente, os países da Unasul, que não estão deixando o episódio paraguaio cair no esquecimento, são os mesmos em que grupos políticos e empresariais vêm tentando produzir situação semelhante.
Alguns desses países, aliás, acreditam que podem se tornar a bola da vez após a ruptura institucional paraguaia – que, repito, deu-se por a Justiça ter sido apartada e pela rapidez do processo. Bolívia, Equador e Venezuela, por exemplo, nos quais, em períodos recentes, houve tentativas de desencadear o mesmo, são os candidatos mais fortes.
Na noite de sábado, no Twitter, o senador petista Delcídio Amaral (MS), considerado um dos mais moderados e acusado por alguns de ser um dos petistas mais tucanos, tuitou propugnando retaliação dura ao novo regime paraguaio.
A própria Dilma Rousseff, que tem se pautado pela sobriedade e pelo comedimento, deu declarações fortes e chamou o embaixador brasileiro para consultas.
Como podem existir visões tão distintas como a dos países ricos e a dos países do entorno paraguaio? Foi um processo “normal”, como disse, por exemplo, o chanceler alemão, ou foi um processo golpista, como disse, em outro exemplo, a presidente argentina?
Em países parlamentaristas como os do norte, a destituição de Lugo seria normal. Um gabinete de primeiro ministro pode cair em prazos tão curtos e sob acusação de mau desempenho, mas, no presidencialismo – em que o presidente é não só chefe de Estado, mas também de governo -, não.
Nos EUA, nação presidencialista que nos inspira, o apoio ao golpe tem outra razão que não a confusão entre parlamentarismo e presidencialismo. É má fé mesmo.
O que está levando países como Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Equador ou Venezuela, entre outros países latino-americanos, a repudiar a destituição de um presidente tão polêmico quanto era Lugo e a propugnarem retaliação ao novo regime paraguaio, portanto, são as reações políticas em cada um deles.
Seja nos periódicos argentinos Clarín ou La Nacion, seja nos bolivianos El Deber ou El Mundo, seja nos chilenos El Mercúrio ou La Tercera, seja nos brasileiros Folha de São Paulo ou Globo, seja nos equatorianos Últimas Notícias ou El Comercio, seja nos venezuelanos El Universal ou El Nacional, sem falar das televisões, o tom é de comemoração e apoio ao golpe.
Em todos esses países, acusações de “corrupção” e de “incompetência” do governo central – acusações usadas contra Lugo – são a tônica do discurso da mídia e da oposição. Em quase todos eles, à exceção de Argentina, Brasil e Chile, de uma forma ou de outra já houve tentativas recentes de golpe – no Brasil, porém, houve tentativa de tentativa de golpe com o mensalão.
As reações da comunidade internacional, porém, estão assustando os golpistas paraguaios. O novo presidente, percebendo o estado de espírito dos governos vizinhos, trata de fazer gestos conciliadores como oferecer a Lugo que permaneça na residência oficial do governo até quando queira e lhe pede, até, para que ajude a explicar ao mundo o golpe que sofreu…
A televisão pública paraguaia, que estava censurando manifestações e que destituiu seu diretor porque mandava cobri-las, retrocedeu, a mando do presidente, e, no último sábado, transmitiu manifestação de milhares de pessoas contra o golpe que a mídia brasileira escondeu e que, nas poucas informações que divulgou, reduziu a duzentas pessoas.
O isolamento do Paraguai decorre da velha máxima de que “Gato escaldado tem medo de água fria”. O processo paraguaio é altamente suspeito. O conflito no campo usado como desculpa não será mais investigado por comissão do governo formada por Lugo antes de sair, o que sugere que o novo presidente, que tomou tal decisão, teme o resultado da investigação.
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Contraponto 8525 - "Mercosul suspende Paraguai de reunião e pode aprovar adesão da Venezuela"

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25/06/2012
Mercosul suspende Paraguai de reunião e pode aprovar adesão da Venezuela
Do Viomundo - publicado em 24 de junho de 2012 às 23:28
iG – Com Reuters e EFE
Mercosul suspende Paraguai da próxima cúpula do bloco
via MVM News
Em comunicado conjunto, Argentina, Brasil e Uruguai anunciaram decisão de retirar país de encontro em Mendoza após impeachment relâmpago de Fernando Lugo
O Mercosul decidiu neste domingo suspender a participação do Paraguai da próxima cúpula do bloco, que será realizada na próxima sexta-feira na Argentina e na qual serão discutidas que medidas tomar em relação ao país após o impeachment de Fernando Lugo.
Em comunicado conjunto, Argentina, Brasil e Uruguai anunciaram sua decisão de “suspender o Paraguai, de forma imediata e por este ato, do direito a participar da 43ª Reunião do Conselho de Mercado Comum e Cúpula de Presidentes do Mercosul”.
O bloco sul-americano, do qual o Paraguai é sócio fundador, também vetou a participação do Paraguai das reuniões preparatórias para a cúpula do Mercosul, que serão realizadas na cidade argentina de Mendoza.
A medida foi adotada, segundo argumenta a declaração, em consideração ao Protocolo de Ushuaia sobre Compromisso Democrático no Mercosul, assinado em 24 de julho de 1998, e que determina “a plena vigência das instituições democráticas” como “condição essencial para o desenvolvimento do processo de integração”.
No comunicado, Argentina, Brasil e Uruguai e os países associados Chile, Peru, Venezuela, Bolívia, Equador e Colômbia expressaram a mais “enérgica condenação à ruptura da ordem democrático ocorrida na República do Paraguai, por não ter sido respeitado o devido processo” no julgamento político de Lugo, destituído na sexta-feira passada.
A declaração afirma ainda que os chefes de Estado considerarão na próxima sexta-feira, em Mendoza, novas “medidas a serem adotadas”.
“O Brasil deve procurar tomar todas as decisões futuras em relação à situação política no Paraguai da forma mais multilateral possível, no âmbito do Mercosul e da Unasul. A suspensão está confirmada e espera-se que até dezembro, quando o Brasil sediará uma cúpula do Mercosul, o assunto já esteja equacionado”, disse a assessoria do Ministério das Relações Exteriores brasileiro.
Na sexta-feira o Congresso paraguaio aprovou o impeachment do então presidente do país, Fernando Lugo, e deu posse a seu vice, o liberal Federico Franco. O processo relâmpago recebeu inúmeras críticas e alguns vizinhos regionais retiraram seus embaixadores do país para consultas.
Neste domingo, Lugo pediu que a democracia retorne ao seu país e anunciou que irá apoiar todas as manifestações pacíficas para que a abalada ordem institucional seja restabelecida. O ex-chefe de Estado anunciou que irá para Mendoza, na cúpula regional, para explicar a situação no Paraguai.
Unasul
Neste domingo, uma fonte do alto escalão do governo brasileiro disse à agência Reuters que o Paraguai deve ser suspenso do Mercosul e da União de Nações Sul-Americanas (Unasul) após o impeachment de Lugo.
Segundo essa fonte, que falou sob condição de anonimato, o governo brasileiro tem mantido contato com autoridades de outros países da região e acredita-se que existe um consenso para a suspensão do Paraguai na semana que vem, para quando está marcada uma reunião de cúpula do Mercosul em Mendoza, na Argentina.
“O ponto é transformar esse novo governo (paraguaio) em um pária”, disse a fonte à Reuters.
Segundo a fonte do governo brasileiro, o embaixador do país em Assunção, chamado de volta para consultas, não deve retornar ao Paraguai. Essa autoridade disse ainda que o Brasil não pretende romper completamente suas relações com o Paraguai por conta de interesses brasileiros no país, como a usina hidrelétrica binacional de Itaipu.
A fonte disse ainda que o governo brasileiro não manterá contatos com Franco e manterá sua tradição de atuar no caso por meio de organismos multilaterais. Essa estratégia, segundo a autoridade, tem o objetivo abrir um precedente que deixe claro a gravidade das consequências de fatos como o ocorrido no Paraguai.
Especificamente, a meta é garantir que nada parecido aconteça em outros paises, como Bolívia e Peru. “Essa é uma reação institucional que mostrará aos outros as consequências negativas de uma medida agressiva como essa”, completou a fonte.
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Com suspensão do Paraguai, Mercosul pode aprovar adesão da Venezuela
do Opera Mundi, via Grupo Beatrice
Aprovação no Senado paraguaio, que depôs o presidente Fernando Lugo, era o último entrave à entrada dos venezuelanos no bloco
Com a suspensão do Paraguai na Cúpula do Mercosul, que será realizada a partir desta quarta-feira (27/06), na Argentina, os países do bloco consideram a possibilidade de aprovar a inclusão da Venezuela como membro permanente, segundo fontes diplomáticas consultadas pelo Opera Mundi.
A suspensão do novo governo paraguaio na 43ª Reunião do Conselho de Mercado Comum e Cúpula de Presidentes do Mercosul foi anunciada neste domingo (24/06) em um comunicado conjunto dos governos da Argentina, Brasil e Uruguai. A decisão foi tomada em repúdio à deposição do presidente Fernando Lugo, na última sexta-feira (22/06), que viola a cláusula democrática do bloco regional.
As intenções de inclusão da Venezuela para o fortalecimento econômico do bloco tiveram início em 2005, quando o país solicitou a adesão como sócio pleno. Na última cúpula, realizada em dezembro do ano passado, em Montevidéu, a proposta foi discutida, mas encontrou resistência do parlamento paraguaio. Segundo as regras do bloco, a medida necessita apoio dos poderes Executivo e Legislativo dos países sócios.
Atualmente, a Venezuela tem um status de Estado em processo de adesão ao Mercosul, enquanto outros países, como Bolívia, Chile, Peru, Colômbia e Equador, são membros associados.
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PITACO DO ContrapontoPIG
Aproveitar a oportunidade de permitir a entrada da Venezuela, seria uma troca excelente para o Mercosul.
Seria, além disso, uma espécie de 'contra-golpe' que este congresso paraguaio receberia em troca da sua canalhice.
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Contraponto 8526 - Vitória americana no Paraguai

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25/06/2012
El Pulpo trocou de nome, mas continua atacando
Do Viomundo - publicado em 24 de junho de 2012 às 22:04
por Luiz Carlos Azenha
Quem quer que tenha conhecimento mínimo da política externa dos Estados Unidos sabe qual é o peso, na América Latina, de “la Embajada”. Não é preciso nem identificar a qual embaixada nos referimos. O presidente do Equador, Rafael Correia, costuma repetir a piada segundo a qual só nos Estados Unidos o presidente não corre o risco de tomar um golpe: não existe embaixada norte-americana em Washington.
Estou lendo Bananas, de Peter Chapman, sobre “como a United Fruit Company desenhou o mundo”. United Fruit, ou El Pulpo, como era conhecida na região, O Polvo. Aliás, foi a empresa que inventou a fruta como commodity. Inventou também o conceito de república das bananas, que a opinião pública conhece de forma distorcida: não haveria república das bananas se uma empresa, com apoio de Washington, não fosse capaz de derrubar e ‘eleger’ governos e interferir de forma tão dramática na História das Américas. Ou seja, o tom depreciativo com o qual se aplica o termo tem que necessariamente identificar quem é que tanto fez para transformar repúblicas em caricaturas.
Sabemos muito pouco sobre o incidente que originou o pedido de impeachment do presidente paraguaio Fernando Lugo. O jornalista Idilio Grimaldi escreveu um artigo dizendo achar inverossímil que um grupo de elite da polícia do Paraguai tenha caído numa emboscada de camponeses. Nunca se sabe.
Eu sempre desconfiei de grupos de luta armada que surgem assim do nada, como o EPP, o Ejercito del Pueblo Paraguayo — até agora, pelo menos, não relacionado ao incidente que resultou na cassação do presidente do Paraguai. Pode haver militantes sinceros envolvidos no EPP, mas muitas vezes estes grupos podem se tornar veículos de interesses não identificados. Quando recebi um convite para visitar o EPP, no Paraguai, de um colega jornalista brasileiro, disse não ter interesse: eu não vou ajudar a promover estes caras, argumentei, não sei e não serei capaz de descobrir a quem eles servem antes da reportagem ir ao ar. Se não houver deadline, tudo bem, mas não aceito ser usado.
O EPP serve, por exemplo, mesmo que não queira, ao esforço para aprovar leis antiterroristas na região, promovidas pelos Estados Unidos e que também se encaixam em tentativas de criminalizar os movimentos sociais.
Já narrei no site antigo, que não está mais no ar, uma experiência que tive no Panamá, durante a crise que antecedeu a invasão dos Estados Unidos. Fomos chamados, jornalistas estrangeiros, para uma entrevista coletiva na base militar dos Estados Unidos no canal do Panamá — que já não existe. Um oficial norte-americano assumiu o podium e deu várias informações, uma delas dizendo que Fidel Castro tinha enviado alguns milhares de fuzis para o ditador panamenho Manuel Noriega, que estava sob pressão de Washington para renunciar.
O militar não apresentou nenhuma prova. Nem foto, nem grampo com áudio. Nada. Como as informações eram em off, ou seja, a fonte não poderia ser identificada, nem havia imagem — e eu trabalhava em TV –, simplesmente descontei a declaração. Porém, levei um susto no dia seguinte quando vi a “informação” na capa do Washington Post, atribuída a uma fonte militar de alto escalão.
Depois da invasão dos Estados Unidos e consequente derrubada de Manuel Noriega, onde é que estavam os fuzis do Fidel Castro? Não houve qualquer reação militar à invasão dos Estados Unidos e ninguém viu ou procurou os fuzis do Fidel. Os milhares de fuzis do Fidel sumiram na névoa. Tinham cumprido seu objetivo.
Há dezenas de incidentes similares registrados na História, como o que aconteceu no Golfo de Tonkin e deu ao presidente Lyndon Johnson autoridade para interferir num conflito que até então envolvia formalmente o Vietnã do Norte e a França (a participação dos Estados Unidos era clandestina). O incidente, do dia 4 de agosto de 1964, simplesmente não aconteceu. Um ataque de barcos patrulha norte-vietnamitas contra dois navios de guerra norte-americanos, o USS Madox e o USS Turner Joy.
Da revista Time: ”Através da escuridão, do Oeste e do Sul… intrusos audaciosamente, em velocidade… pelo menos seis deles… abriram fogo contra os destróiers com armas automáticas, desta vez a apenas 1.800 metros”.
Vários historiadores sugerem que os destróiers foram enviados justamente para provocar incidentes que justificassem a intervenção dos Estados Unidos. Se de fato houve um confronto no dia 2 de agosto, o do dia 4 de agosto simplesmente não aconteceu, mas foi amplificado pela mídia e usado como justificativa pela Casa Branca.
Johnson, que era candidato à reeleição, foi à TV, autorizou ataques aéreos contra o Vietnã do Norte e três dias depois recebeu do Congresso autorização para “tomar todas as medidas necessárias, inclusive o uso das forças armadas, para dar assistência a qualquer integrante do Tratado de Defesa Coletiva do Sudeste da Ásia que pedir assistência em defesa de sua liberdade”. Uma provocação apresentada como ação em defesa da liberdade.
Em resumo, os Estados Unidos têm uma longa história de:
1. Usar a diplomacia e a força militar para defender o interesse de suas empresas;
2. Usar a mão do gato para atingir seus objetivos, se preciso com falsificações.
No caso paraguaio, é altamente improvável que “La Embajada” não tenha sabido com antecedência e dado aprovação tácita ao impeachment fast food de Fernando Lugo.
Se o resultado final não interessasse aos Estados Unidos, Washington poderia muito bem ter consultado Brasília sobre a crise antes de se posicionar oficialmente. Afinal, o Paraguai é vizinho do Brasil e integrante do embrião de uma união econômica com o Brasil. Pensem na enormidade disso: o Paraguai é sócio do Brasil numa das maiores hidrelétricas do mundo, essencial para a economia dos dois países!
Mas o governo Obama reconheceu o novo líder paraguaio com uma rapidez espantosa, talvez só equivalente ao reconhecimento do governo de Pedro Carmona, na Venezuela, depois do golpe que afastou Hugo Chávez, em 2002.
Se não restava apoio político a Fernando Lugo, se não poderia concorrer à reeleição e estava na reta final do mandato, qual seria o sentido de afastá-lo?
Quem conhece o Paraguai sabe que a única chance que Lugo teria de influenciar as próximas eleições seria através do controle, ainda que parcial, da enfraquecida máquina do Estado. O poder econômico, legal e ilegal, está contra ele, para não falar de influentes poderes internacionais, como o Vaticano. A mídia paraguaia, obviamente, está majoritariamente com o poder econômico.
Se nossos jornais e emissoras de TV reproduzem acriticamente propaganda dos Estados Unidos, quando não simplesmente assumem para si o papel de defender Washington, mesmo contra o governo brasileiro, por que no Paraguai seria diferente?
A deposição veloz de Lugo, em algumas horas, tinha o objetivo de criar uma situação de fato, desarticulando as forças que o elegeram e reduzindo a influência delas nas eleições de 2013.
Internamente, garantia de que a influência da esquerda será praticamente eliminada.
Externamente, garantia de que a influência dos Estados Unidos será amplificada.
Se o Paraguai foi capaz de bloquear, graças ao Senado, a entrada da Venezuela no Mercosul, agora mais do que nunca poderá ser uma pedra no sapato da integração regional, que não interessa aos Estados Unidos.
Por ter vivido quase 20 anos lá, sei exatamente como funciona a política externa norte-americana. Ela é de Estado, nunca de governo. É por isso que Fernando Gabeira, que sequestrou o embaixador norte-americano no Brasil, jamais ganhará visto de entrada nos Estados Unidos, a não se que se torne presidente do Brasil e tenha algo muito bom para oferecer — o pré-sal, por exemplo.
É por isso que jamais os Estados Unidos vão aceitar a expropriação de empresas norte-americanas feita por Fidel Castro. Jamais vão engolir Hugo Chávez. Jamais vão aceitar um papel de liderança do Brasil que prejudique seus interesses econômicos imediatos na região, especialmente o acesso a recursos naturais como o gás e o petróleo.
Pelo contrário, Washington vai trabalhar ativamente, de forma constante e persistente, para dividir e conquistar, estratégia aplicada historicamente (no Vietnã, por exemplo, até hoje os Hmong, que vivem nas montanhas fronteiriças, pagam caro por terem prestado serviço aos invasores durante a guerra).
Não se trata de uma questão ideológica. É dividir e conquistar para pagar menos pelo cobre do Chile, pelo petróleo da Venezuela, pelo gás da Bolívia e para proteger os investimentos, as empresas e os interesses das empresas norte-americanas na região. Simples assim.
Ou vocês acham que as empresas norte-americanas que ajudaram a financiar o golpe de 64, no Brasil, estavam interessadas em nossas praias?
Parte da estratégia de Hillary ou de quem quer que venha depois dela consiste na delicada exploração do fato de que o Brasil é visto pela opinião pública de países vizinhos, pelo menos por parte dela, como dono de apetite imperialista. Faz sentido para o Paraguai, por exemplo, se equilibrar entre o Brasil e os Estados Unidos, cobrando concessões econômicas de ambos ao mesmo tempo.
Do ponto-de-vista de Washington, o Paraguai é um valioso peão para colocar pedras no caminho do Mercosul, da Unasul e de todos os organismos multilaterais regionais que excluam os Estados Unidos e, portanto, a influência dos Estados Unidos.
Estamos aqui no campo da realpolitik, não das firulas diplomáticas ou jurídicas.
O que aconteceu em Assunção foi uma estupenda vitória do Departamento de Estado e uma fragorosa derrota, ao menos até agora, do Itamaraty.
Uma derrota do projeto brasileiro de integração que, obviamente, é modelado para atender prioritariamente aos interesses políticos, econômicos, diplomáticos e militares do Brasil, ainda que muita gente por aqui torça — e trabalhe — por Washington.
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O GOLPE PARAGUAIO

23/06/2012 - Laerte Braga
original publicado no blog Juntos Somos Fortes

O golpe sumário dado pelo Parlamento do Paraguai contra o presidente Fernando Lugo tem a marca registrada da classe dominante naquele país.

Latifundiários associados a multinacionais, uma força armada corrompida e cooptada por interesses de grandes corporações, bancos e os donos da terra.

O Paraguai jamais se recuperou da guerra contra o Brasil, a Argentina e o Uruguai (1864/1870). O conflito foi estimulado pela Inglaterra, então maior potência do mundo, em defesa de seus interesses econômicos. O Paraguai não dependia de países da Europa, tinha uma indústria têxtil competitiva e era um dos grandes exportadores de mate, concorrendo com o império britânico.

O capital para a guerra foi dos ingleses e em meio ao conflito é que, praticamente, se construiu as forças armadas brasileiras, inteiramente despreparadas para um confronto de tal envergadura. Nos primeiros anos da guerra os soldados brasileiros passavam fome e os armamentos eram mínimos, insuficientes para o genocídio que viria mais à frente. Foi a conseqüência inicial da avidez do governo imperial de aceitar as libras inglesas. Os países que formaram a chamada Tríplice Aliança, numa selvageria sem tamanho, mataram 70% da população paraguaia e até hoje a maioria acentuada entre os que nascem naquele país é de homens.

De lá para cá o Paraguai tem sido governado por ditadores, numa sucessão de golpes de estados e o breve período “democrático” que se seguiu à deposição do último general, Alfredo Stroessner (morreu exilado no Brasil, era capacho da ditadura militar brasileira), encerra-se agora com a deposição branca de Fernando Lugo.

Um ex-bispo católico, conhecido como o “bispo dos pobres”. O mandato de Lugo terminaria no próximo ano. O vice-presidente é do Partido Liberal, aquele jogo político de amigos e inimigos cordiais, onde os donos se revezam no poder.

O pretexto para a deposição de Lugo foi um massacre de trabalhadores rurais sem terra, numa região próxima à fronteira com o Brasil. Morreram manifestantes e integrantes das forças de repressão. De lá para cá Lugo enfrenta um inferno.Latifundiários brasileiros, a classe dominante paraguaia – subordinada a interesses do Brasil e de corporações internacionais – se uniram contra Lugo e o apoio de empresas como a MONSANTO, a DOW CHEMICAL, o silêncio formal e proposital dos EUA, todos esses ingredientes foram misturados e transformados em golpe de estado.

Tal e qual aconteceu em Honduras contra Manoel Zelaya. A nova “fórmula” para golpes de estado na América Latina. A farsa democrática, o rito constitucional transformado em instrumento golpista na falta de pudor da classe dominante. No caso do Paraguai, como no de Honduras, miquinhos amestrados do capitalismo internacional.

A elite paraguaia jamais permitiu ao longo desses anos todos, desde 1870, que o país se colocasse de pé novamente. Tem sido um apêndice de interesses políticos e econômicos de corporações estrangeiras e do sub-imperialismo brasileiro. Carregam as malas dos donos enquanto submetem os trabalhadores a um regime desumano e cruel que não mudou e nem vai mudar enquanto não houver resistência efetiva e nas ruas contra esse tipo de procedimento, contra essa subserviência corrupta e golpista. E cumplicidade de governos vizinhos. Mesmo que por omissão, ou fingir que faz alguma coisa.

E necessária a consciência dos governos de países como o Brasil que situações de golpe são inaceitáveis. Que a integração latino americana é fundamental e se faz com democracia e participação popular. Não com alianças com Paulo Maluf.

Fernando Lugo cometeu erros. O maior deles o de acreditar que era possível governar o país com grupos da direita. As políticas de conciliação onde a elite é implacável e medieval, as forças armadas são agentes – em sua maioria esmagadora – de interesses estranhos aos nacionais e as forças populares sistematicamente encurraladas pela violência e barbárie.

Ou se percebe que o golpe contra Lugo é um golpe contra toda a América Latina, ou breve situações semelhantes em outros países. Por trás de tudo isso, em maior ou menor escala, mas de forma direta os EUA e o que significam no mundo de hoje.

No que o presidente do Irã, Mahamoud Ahmadinejad chama de colonizadores. No ano 2000 o economista César Benjamin, numa palestra na cidade mineira de Juiz de Fora espantou os ouvintes ao dizer que “o século XIX foi o dos grandes impérios colonizadores, o século XX o do fim do colonialismo, o século XXI vai assistir a um novo ciclo de colonização de países periféricos às grandes potências”.

A previsão está se confirmando.
O secretário geral da UNASUL, Ali Rodriguez disse em entrevista a vários jornalistas que “o Paraguai pode estar em meio a golpe de Estado devido à rapidez do julgamento político do presidente do país, Fernando Lugo” e mostrou-se preocupado com um possível “processo de violência. Tudo indica que uma decisão já foi tomada e que pela rapidez com a qual os eventos estão acontecendo, poderíamos estar perante um golpe de Estado”.

Basta que países como o Brasil e a Argentina, por exemplo, asfixiem econômica e politicamente o novo governo para que ele não se sustente. Depende da vontade política de um e outro de manter a democracia no Paraguai, mesmo frágil, de pé. A classe dominante paraguaia nunca deu muita importância a isso, pois sempre consegue espaço para se acomodar e continuar a transformação do país em uma espécie de vagão a reboque principalmente do Brasil. Desde o fim da guerra, em 1870 tem sido assim.

Fernando Lugo foi acusado, entre as farsas várias, de humilhar as forças armadas (existem, ou são esbirros do capitalismo?) e colocar-se ao lado dos trabalhadores sem terra. É o velho e boçal latifúndio que no Paraguai é a força econômica mais poderosa. Os protestos populares acontecem próximo ao Parlamento, mas já com forças policiais prontas para massacrar e impedir qualquer reação. É preciso ir às ruas em toda a América Latina e é fundamental asfixiar essa elite que cheira a esgoto.

Se o governo brasileiro quiser não tem golpe que sobreviva.

O problema é querer.

A preocupação hoje, no entanto, é de “consenso possível” (um fracasso na RIO+20) e as eleições de outubro.

A mídia de mercado – fétida também – no Brasil já desestimula qualquer atitude mais forte do governo. Afirma que Lugo declarou que aceitará o “julgamento político”. É mais uma das muitas e constantes mentiras padrão GLOBAL.

O golpe no Paraguai fere o arremedo de democracia que sub existe no Brasil e em outros países com o consentimento dos “poderes moderadores”.

As elites políticas e econômicas são as mesmas, arcaicas, podres e totalitárias. Quando querem colocam as garras de fora.

Foi o que fizeram com Lugo. O que querem fazer com Chávez. Com Evo Morales e outros tantos.

E no fim de tudo atribuir a culpa ao Irã.


Fonte:

AHMADINEJAD: – “ATACAM E INVADEM OUTROS TERRITÓRIOS PARA ESCRAVIZAR OS POVOS”

24/06/2012 - Laerte Braga (*)

Os norte-americanos e sionistas têm bombas de todas as espécies e as usam contra as pessoas”.

A afirmação é do presidente do Irã Mahamoud Ahmadinejad em entrevista que concedeu num hotel do Rio, um dia depois de discursar na RIO+20 defendendo uma nova ordem mundial “baseada na paz e no respeito entre os povos”.

Sem citar uma única vez o nome da presidente Dilma Roussef, mas classificando de “definitivo” o documento firmado entre os governos do Brasil, da Turquia e do seu país sobre a questão nuclear, Ahmadinejad lembrou Lula, à época desse acordo o presidente da República.

Lúcido e seguro em sua análise o presidente iraniano não teve dúvidas em falar da guerra midiática, uma das frentes do complexo terrorista ISRAEL/EUA TERRORISMO “HUMANITÁRIO” S/A. “Mostram nosso povo como pobre e atrasado. Somos a décima sétima economia do mundo, breve seremos a décima quinta e temos posição de ponta nas questões que envolvem biotecnologia”.

Distorcem para criar uma realidade que não existe, mas agrade aos seus interesses.

Querem as nossas riquezas naturais, explorar nossos povos”.

Mahamoud Ahmadinejad fez alusão ao regime anterior à revolução islâmica, que definiu como de submisso aos interesses dos EUA. “Tínhamos uma população de 35 milhões de iranianos e 90% vivia na pobreza. Hoje somos bem mais e a realidade é diferente daquela”.

Enfatizou que quatro milhões de iranianos são judeus e muitos “foram tentar a vida em Israel após a revolução, mas voltaram, pois não conseguiram viver naquele país”.

Um estado islâmico não significa necessariamente restrição de liberdade religiosa. A Noruega, por exemplo, não é um estado laico e isso está escrito em sua constituição.

O presidente do Irã reuniu-se com intelectuais brasileiros e representantes dos movimentos sociais destacando a história de luta pela democracia, da qual todos foram partes.

Denunciou mais uma vez que a ONU faz o jogo dos EUA, através do controle do Conselho de Segurança. Com isso, países que dispõem de arsenais nucleares não são punidos com sanções, caso de Israel, com mais de 300 artefatos, enquanto o Irã que usa energia atômica para fins pacíficos sofre sanções severas e constantes ameaças.

Temos sete mil anos de história e não nos submetemos nunca. Querem nos escravizar, voltar à ordem antiga, do regime antigo e assim explorar nossas riquezas. Por isso nos satanizam. Transformar o povo em escravo”.
 
Centro de Teerã à noite
Os que querem o monopólio da energia nuclear são os que têm bombas e já usaram em tempos passados, na Segunda Guerra, contra seres humanos. Energia nuclear para todos, bombas para ninguém. São os mesmos desse passado”.

Seis milhões de barris de petróleo-dia os Estados Unidos tiravam do Irã no regime antigo e nosso povo estava na miséria”, disse Ahmadinejad. “É o que querem fazer de novo”.

O presidente lembrou a guerra Iraque e Irã. “Armaram Saddam contra nós, inclusive com armas químicas e biológicas, numa guerra que custou milhares de vidas e depois destruíram o Iraque para ficar com o petróleo”.


Base americana em Guantánamo

“Não têm respeito pelos seres humanos”.

Citou o fato dos EUA apoiarem ditaduras no Oriente Médio como forma de assegurar o controle da região, de ignorar o arsenal nuclear de Israel e permitir a opressão contra o povo e o território palestinos.

Sobre a questão síria o presidente declarou que “tem que ser resolvida entre os sírios, pelo povo sírio e não com intervenção de outros países”.

Não existem pessoas, seres humanos para os norte-americanos e sionistas, só interesses. Querem dominar para explorar

Ahmadinejad deixou claro que só uma nova ordem mundial poderá assegurar a todos os povos “paz e respeito” e isso passa por contrariar os negócios das grandes potenciais mundiais, de Israel e dos Estados Unidos.

Citou a fome na África, as guerras do Afeganistão e travadas mundo afora pelos “colonizadores”, inclusive na América Latina, onde lembrou a exploração das riquezas pelos países que colonizaram a região e agora, pelos interesses norte-americanos diante das dificuldades com vários governos contrários a essa exploração.

É uma luta de todos os povos oprimidos a nova ordem”.

A entrevista do presidente Ahamadinejad, ao contrário das normalmente concedidas por chefes de governo e estados, não registrou nenhuma paranóia típica de agentes norte-americanos e israelenses. Foi descontraída, a segurança limitou-se aos procedimentos normais e nenhum deles constrangedores.

Nem o hotel onde estava hospedado e nem as ruas nas imediações foram fechadas, nada de franco atiradores.

E pela primeira vez jornalistas das mídias alternativa e virtual lado a lado com os da mídia de mercado, fato que, numa certa medida, inibe a costumeira mentira de GLOBO, VEJA, FOLHA DE SÃO PAULO, etc.

Foram poucos os comentários sobre a RIO + 20, levando em conta que seu discurso abrangeu bem mais que as questões que ali estavam sendo discutidas. Foi um documento de amplo teor político com diagnóstico da conjuntura atual e a posição de seu país, sob constante ameaça de ataques tanto por parte dos EUA, como de Israel. 

Fernando Lugo, ex-presidente Paraguaio, deposto por um golpe "constitucional".
Coincidência ou não, no dia seguinte, na sexta-feira, as avaliações de Ahmadinejad sobre a intervenção norte-americana em função de interesses políticos, econômicos e militares, se materializou no Paraguai, no golpe que derrubou o presidente Fernando Lugo. Um dos objetivos dos norte-americanos é construir ali uma base militar que permita monitorar o Brasil e a posse do quinto maior aqüífero do mundo, o Guarani. A água hoje, segundo o presidente da Coca Cola, “vale mais que petróleo”. Afirmação que dá, mais uma vez, razão ao pensamento de Ahmadinejad.

A afirmação do presidente da Coca Cola foi feita na RIO + 20, num fórum restrito de empresários, quando defendeu a privatização plena e absoluta da água. Ou seja, o controle pelas grandes corporações e em função dos interesses que representam.

Ao contrário do “monstro” que a mídia de mercado (GLOBO, VEJA, FOLHA DE SÃO PAULO, RBS, ESTADO DE SÃO PAULO, ÉPOCA, etc) vende, o presidente do Irã se mostrou lúcido, sereno e correto em suas avaliações e análises.

Não é um fato que possamos ignorar levando em conta o que ocorre em todo o mundo hoje.

A percepção que a luta transcende ao chamado mundo institucional, controlado em sua maioria – no Brasil inclusive – por grupos ligados a interesses do imperialismo norte-americano, do capitalismo internacional.

A luta é nas ruas como aconteceu na Cúpula dos Povos, evento paralelo à RIO + 20.

(*) jornalista